Acalentar meninos

Dezembro 9, 2007

Embala, preta, embala
Menino do teu senhor;
Canta-lhe bem amoroso,
Anima-lo com amor.
Embala, preta, embala,
Como o fez San José,
Que os anjos cantarão:
Pater nostre domine.

San José, a trabalhar,
Embalava com seu pé:
“Calai-vos, Jesus Menino,
Nascido em Nazaré,”
Meu San José, acudi
Dai-me da vossa graça,
Com que enxugue ao meu menino
Suas lágrimas de prata.

Embala, preta, embala,
Como a Virgem faria,
Que os anjos cantarão:
“Gratia Plena Ave-Maria”.
Cantigas embalou Jesus:
-Calai-vos, meu bento filho,
Que haveis de morrer na cruz.
Nossa Senhora, acudi,
Dai-me o vosso tesouro,
Com que cale o meu menino
Que chora lágrimas de ouro.”

Teófilo Braga in Cem Poemas Portugueses sobre a Infância

Joaquim Teófilo Fernandes Braga nasceu em Ponta Delgada (1843-1924). No pensamento português, a sua presença é pautada pela forma como defendeu o ideal positivista, na segunda metade do século XIX. Lutador e organizador dos ideais republicanos, presidiu ao primeiro governo republicano e foi presidente da República em 1915. Foi político, escritor e ensaísta, licenciado em Direito pela Universidade de Coimbra. Da sua obra vasta , diversa e desequilibrada, destaca-se o trabalho de recolha do Cancioneiro e do Romanceiro populares portugueses, que ainda hoje constitui um ponto de referência obrigatório.

Rubina Encarnação

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Fiel Aconchego

Novembro 20, 2007

Ruídos que se alastram no corredor
Fumo que se dissipa no ar
Gargalhadas que não se calam.
Tagarelas constantes no impasse do momento
Simuladores de felicidade imperdível
Declaradores de anulações mensageiras.
Sociedade juvenil reunida na narrativa
Contadores de fantasias reais
Comunicadores da viagem estudantil!
 
 
Ferozes discursos entrelaçados
Ingénuas trocas de olhar
Famosos risos conhecidos.
Actividades sinistras
Salteadores de sonhos
Suaves conversadores.
Engenhosos animados
Preenchem o espaço,
Imaculada Residência!

Rubina Encarnação

Dom

Novembro 12, 2007

Não sei bem como começo

Ás vezes sem intenção

Inicio um processo complexo

Sem haver uma razão

De a mim próprio me habituar

Não sei bem como acontece

Mas conforme desenvolvo

A linha da minha génese

O meu coração anoitece

Em sonhos de inquietação

Fábio Canceiro